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quarta-feira, 15 de junho de 2016

O nosso ultimo verão



Escolho este excelente "traço" rápido com que o pintor Rogério Chora retratou o meu pai para me despedir dele e dos nossos "dias do café Arcada". Quando fiz este último desenho fazia um dia que parecia verão. O nosso último verão.


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Um coelho chamado amor



O meu pai, que tem Alzheimer e perto de 90 anos, dedicou os últimos 30 anos da sua vida à escultura, aos esboços e ao amor que sentia pela minha mãe e que era mútuo, tenho a certeza.
A minha mãe faleceu há cerca de quinze dias. Optámos por o tranquilizar deixando-o na sua zona de conforto que é o esquecimento.

As visitas ao lar onde se encontra, claro, duplicaram, pelo que os meus “dias do Café Arcada” se intensificaram, assim como os desenhos. Gosto das suas críticas porque lhe brotam de dentro.

Hoje, contrariamente ao habitual, dado a minha inaptidão para rostos, decidi inclui-lo num dos meus desenhos e ainda por cima panorâmico e a preto e branco.

Instado a responder-lhe se “aquele” era ele, ao pé do copo de leite com a palhinha, hesitei e, pela primeira vez, porque o incomoda não se reconhecer nos desenhos, disse-lhe que não, que era inspirado num caçador. Não vês que está a olhar para o coelho escondido atrás das flores? aleguei, em fuga.

Voltou a olhar para o caderno, fez um silêncio enorme e acrescentou: gosto muito destes desenhos teus Zé (quando me chama zé em sinal de reconhecimento derreto-me todo), mas para te ser sincero punha as cores, e já agora estou farto de olhar e não consigo ver nenhum coelho.




segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Os dias do café Arcada


Estes quatro desenhos foram feitos em alturas diferentes, embora todos a partir da esplanada da pastelaria Arcada, situada no Montalvão em Setúbal, um bairro tranquilo e característico da classe média da 2ª metade do século XX e que, à semelhança de tantos outros, já conheceu dias melhores.

A razão da minha atração pelo local deve-se ao facto de o meu pai, com noventa anos, estar num lar que fica perto. Há alguns anos que interrompo as férias para que não se sinta demasiado sozinho. Depois parto outra vez, mas não é a mesma coisa. Os meus irmãos fazem o mesmo, alternadamente.



Trago-o com frequência na sua cadeira de rodas à esplanada. Observamos o “drama” dos jogadores de cartas, mostro-lhe os desenhos que fiz ou ele observa atentamente os que estou a fazer, ouço as suas críticas. Sabe-me bem.




 Se fosse um filme intitular-se-ia “Os dias do Café Arcada”. Disso tenho a certeza.